quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Consciência negra III - identificação cultural x personagens afro-descendentes

 Olá amigos, 
A nossa ideia de hoje  aponta para um fator importantíssimo quando se trata de leitura e, mais ainda, em se tratando de literatura voltada para os pequenos leitores:  a identificação positiva com o(s) personagem(ns).
Não é novidade nenhuma, pelo menos para alguns mais atentos às ideias da vida, que todas as gerações de leitores infantis, até ontem, bebiam do imaginário de obras clássicas, contos de fadas de renome internacional e atemporalmente consagrados (e nisso incluo também o Sr. Monteiro Lobato, mas esse é um caso sério de estudo a ser passado completamente a limpo e não pra hoje, nem em uma única postagem, com certeza), entretanto, para meninos e meninas negras(e neste grupo etário eu me incluo) as referências eram inexistentes, ou pior,  eram apresentandas em situação de inferioridade, subalterna  depreciativa. Coisas do etnocentrismo.
Bem, paro de tagarelar porque hoje a fala não será minha. 
A professora  Maíra Suertegaray deu-nos o prazer de compartilhar com o Ideias de Canário uma experiência bem pessoal como mãe e escritora que busca exatamente o tipo de identificação étnica de que se falou acima para os pequeno leitores, sejam eles afro-descentes ou não. Com a palavra, a escritora Mayra Suertegaray:


Como entrei no universo literário Infantil?

Como comecei a escrever para crianças? Como professora de sexto e sétimo anos, buscava novas formas de trabalhar Geografia, formas mais lúdicas, leituras mais agradáveis com fantasia e, ao mesmo tempo, com conteúdo científico. Mas, como foi difícil encontrar. Por outro lado, minha filha de 3 anos começava a despertar sua curiosidade sobre as coisas ao seu redor, sobre os fenômenos da natureza, sobre o Sol, a Lua, as estrelas...
Dandara, a menina com verdadeiras Ideias de canário.
Por que não unir as duas coisas? Na hora de dormir, Dandara e eu conversávamos sobre estas curiosidades infantis tão próprias da idade e as histórias começaram a surgir. Foi assim que nasceu a história de “Dandara, o Dragão e a Lua”, narrativa que fala de uma menina muito curiosa que adora o céu. Por ser muito atenta e observadora, descobre muitas coisas, mas também tem muitas perguntas... A partir desta paixão, Dandara e seu dragão mágico partem para uma viagem pelo espaço na busca de trazer a Lua e as estrelas pra seu quarto.
História pronta, as imagens começaram a brotar na minha cabeça. De uma coisa eu tinha certeza, a Dandara seria a Dandara, ou seja, uma menina mestiça filha de mãe branca e de pai negro e sua família seria a nossa família. Seria uma personagem principal afrodescendente. Foi esta informação que dei a ilustradora Carla Pilla, amiga de infância e artista excepcional na arte da ilustração. Ela fez a mágica.
Como professora e mãe vejo o questionamento das crianças sobre “Onde estão os heróis, as princesas e os príncipes negros?” Pois é, onde estão as referências para este público infanto-juvenil?  Mais uma razão para a defesa desta personagem.
E Dandara, de fato, alçou altos voos. Fiz e continuo fazendo contações de histórias em várias escolas para crianças da pré-escola até o 6o ano do Ensino Fundamental e cada uma delas me traz ensinamentos incríveis. O personagem da Dandara ensina através de suas perguntas e desperta nas crianças ainda mais curiosidade. Isto, para mim, mãe e professora, é fundamental.  A curiosidade dá significado para aquilo que se aprende, a curiosidade impulsiona o desenvolvimento da criança. Precisamos estimulá-la sempre.
É com base nestes focos que sigo escrevendo minhas histórias para os pequenos. Escrever livros é difícil, o espaço precisa ser conquistado e ainda é muito restrito para novos autores. Mas insisto, pois vejo uma lacuna a ser preenchida, tanto no que se refere aos livros literários com conteúdos científicos que podem ser trabalhados nas escolas, como quanto aos livros com personagens afrodescendentes que sirvam de referencias para as crianças, personagens com os quais elas se identifiquem e se orgulhem de suas origens.
Por isso, aguardem: novas aventuras da Dandara virão por aí!
Maíra Suertegaray (Profa. Dra. Depto. Humanidades do Colégio de Aplicação da UFRGS



             Leitores de todas as idades, em especial os pequenos, aguardam por mais iniciativas como essas. Que às próximas gerações seja dada não só a história para ler, mas também um universo onde ela possa também reconhecer-se suas origens étnicas.
À  professora Maíra, fica nosso muito obrigada pela participação,  parabéns pela iniciativa e votos de sucesso (garantido, com certeza) em suas novas incursões pelo mundo encantado da literatura infantil.
Amigos, até a próxima ideia
Cármen Machado.

http://www.filedegato.com/home.aspx
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http://www.carlapilla.com.br/
http://www.editoracassol.com/

sábado, 12 de novembro de 2011

Consciência negra II

MERCADO AFRO-LITERÁRIO: O EMERGENTE INVISÍVEL?
      A questão da leitura como  meio de desenvolvimento pessoal e visão de mundo não pode deixar de levar em conta o pertencimento étnico-cultural tanto do leitor como dos escritores. 
O texto que segue (no link)  aborda o status do mercado afro-literário brasileiro em face da Lei 10.630/2003, que prevê a obrigatoriedade da inclusão da História Africana e Afro-Brasileira no currículo escolar.
http://www.japer.org/2011/10/mercado-afro-literario-o-emergente-invisivel/

   Extremamente pertinentes as considerações a respeito das questões de mercado afro-literário no Brasil, uma vez que, conforme é dito no próprio texto, o segmento ainda "engatinha. Vários e conhecidos  são os motivos desse status. De minha parte, como afro-descendente, leitora e profissional da área de língua e literatura, acredito que as iniciativas públicas nesse sentido não colaboram para além do necessário, mesmo quando são decorrentes da aplicação da Lei 10.639.
    Especificamente em relação aos livros didáticos da área de Língua e Literatura, o conteúdo, infelizmente, é ainda abordado em capítulo separado(geralmente o último) dentro do livro. Uma vez que, na maioria das escolas públicas, os professores têm a opção de escolha em relação ao material a ser adotado em sua área, é importante que tenha em mente não só a obrigatoriedade legal quando for fazer sua escolha, mas também utilizar-se de senso crítico, afim de que a escolha seja a mais acertada e verdadeira possível.
     Quanto à literatura em geral, cabe ainda um maior empenho dos leitores(dentre os quais devem, obrigatoriamente, estar os professores de todas as áreas) no sentido de buscar conhecimento de autores, obras, editoras e livreiros efetivamente  interessados na questão afro-descendente no Brasil, caso contrário, a abordagem seguirá sendo feita de modo superficial e, nesse caso, o ganho será de mão única e haverá lucro apenas financeiro e, certamente, não para quem mais precisa.

Cármen Machado.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A vida real dos pássaros da literatura: Sincronismo dos pássaros - Murmuration

Fantástico, espetacular!!!
(Do blog Daka(http://dakirlarara.wordpress.com/),



imediatamente lembrei de José Saramago: em "A jangada de pedra", há uma participação especialíssima dos estorninhos que acompanham, em indas e vindas,a busca dos dois casais,Joana Carda/Joaquim Sassa, José Anaiço/Maria Guavaira acompanhados (ou guiados?)pelo Cão.
"Na manhã do dia seguinte, um homem atravessava uma planície inculta, de mato e ervaçais alagadiços, ia por carreiros e caminhos entre árvores, altas como o nome que lhes foi dado, choupos e freixos chamadas, e moitas de tamargas, com o seu cheiro africano, este homem não poderia ter escolhido maior solidão e mais subido céu, e por cima dele, voando com inaudito estrépito, acompanhava-o um bando de estorninhos, tantos que faziam uma nuvem escura e enorme, como de tempestade. Quando ele parava, os estorninhos ficavam a voar em círculo ou desciam fragorosamente sobre uma árvore, desapareciam entre os ramos, e a folhagem toda estremecia, a copa ressoava de sons ásperos, violentos, parecia que dentro dela se travava ferocíssima batalha. Recomeçava a andar José Anaiço, era este o seu nome, e os estorninhos levantavam-se de rompão, todos ao mesmo tempo, vruuuuuuuuuu. Se, não sabendo quem este homem é, nos puséssemos a querer adivinhar, diríamos que talvez seja passarinheiro de ofício ou, como a serpente, tem poder de encanto e habilidades atractivas, quando o certo é estar José Anaiço tão duvidoso como nós sobre as causas do alado festival, Que quererão de mim estas criaturas, não estranhemos a palavra desusada, há dias em que as comuns não apetecem.Vinha o caminhante de nascente para poente, calhara assim o caminho e o passeio, mas, por ter de ladear uma grande alverca, virou para o sul em curva, ao longo da margem. Para o fim da manhã começará a aquecer, por enquanto há uma brisa frescal e límpida, lástima não poder guardá-la no bolso para quando viesse a ser precisa na hora do calor. Ia José Anaiço discorrendo estes pensamentos, vagos e involuntários como se não lhe pertencessem, quando deu por que os estorninhos tinham ficado para trás, esvoaçavam além, onde o carreiro faz a curva para acompanhar a lagoa, procedimento sem dúvida extraordinário, mas enfim, como se costuma dizer, quem vai vai, quem está está, adeus passarinhos. José Anaiço acabou de contornar a alverca, quase meia hora de passagem difícil, entre espadanas e silvados, e retomou o caminho primeiro, na direcção em que antes viera, de oriente para ocidente como o sol, quando de súbito, vruuuu, apareceram outra vez os estorninhos, onde teriam estado eles metidos. Ora, para este caso não há explicação. Se um bando de estorninhos acompanha um homem em seu passeio matinal, como um cão fiel ao dono, se espera por ele o tempo de dar a volta a uma lagoa e depois o segue como antes vinha fazendo, não se lhe peça que diga ou averigue os motivos, pássaros não têm razões mas instintos, tantas vezes vagos e involuntários como se não nos pertencessem, falávamos dos instintos, mas também das razões e dos motivos."(...) (Companhia das letras)

 Em mais essa irretocável narrativa do mestre Saramago,  a Península Ibérica aparta-se, literalmente, da Europa,numa alusão crítica do autor quanto à unificação européia em relação aos países ibéricos, postos de lado, navegando à deriva sem se identificarem cultural, social ou economicamente com o resto do continente.
 Releitura mais do que obrigatória pra mim. Quem ainda não leu, tá esperando o quê, depois desse vídeo, prá lá de inspirador?

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Consciência negra - I

       A consciência  afrodescendente, que me acompanha durante 364 dias é "exaltada oficialmente" no dia 20 deste mês que se inicia. Essa data, que homenageia Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra no país, faz parte do calendário desde o final da década de 70, quando os movimentos sociais começaram a ressignificar o movimento negro. A partir de então, foi necessariamente enfatizada a ancestralidade dos valores civilizatórios africanos que, por força da socialização etnocêntrica foram deixados de lado por tanto tempo. 
     Desde então, uma série de políticas públicas vêm sendo adotadas em todas os segmentos da sociedade brasileira, principalmente na educação, com objetivo de combater o preconceito e a discriminação racial no Brasil.
    Com lei 10.639/2003, que prevê a obrigatoriedade do ensino de História da África e da Cultura afro-descendente no ensino, o currículo escolar, na sua totalidade e, em particular(para o caso deste blog) a literatura, necessita de um outro olhar. Um olhar que seja capaz de perceber, respeitar e valorizar as especificidades étnicas da comunidade escolar. Os alunos e suas famílias, professores, servidores, direção, coordenação, ...- precisam reconhecer suas origens culturais no ambiente escolar. 
     Que dizer, então, do livro didático?
     Que dizer da Literatura?
    Que dizer de Machado de Assis (a quem o nome deste blog homenageia), escritor afro-descendente que teve sua origem racial "ignorada" (não esquecer o recente comercial da Caixa Econômica Federal)? 
   Que dizer de Luiz Gama, Solano Trindade, Cruz e Souza, Lima Barreto, Auta de Souza, José do Patrocínio?
Luiz Gama 
Ainda, que dizer de todos os outros dos quais nunca ouvimos falar (e jamais ouviremos ou leremos nada por eles escrito) porque tiveram suas  vozes abafadas devido a cor de sua pele? Isso pra ficar  só na Literatura. 
    Então, em nome da consciência de pertencimento étnico-racial que durante muito tempo esteve à sombra do "mito da democracia racial", o   Ideias de Canário, neste mês (e todos os outros também), dedica suas postagens a alguns desses escritores e suas obras.
Até breve, amigos.
Cármen Machado.


Luiz Gama, 1830-1882


A bodarrada

Quem Sou Eu?
O que sou e como penso, 
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo
De maçante e mau estilo; 

E que os homens poderosos 
Desta arenga receosos, 
Hão de chamar-me tarelo, 
Bode, negro, Mongibelo; 
Porém eu, que não me abalo, 
Vou tangendo o meu badalo 
Com repique impertinente, 
Pondo a trote muita gente. 
Se negro sou, ou sou bode, 
Pouca importa. O que isto pode? 
Bodes há de toda a casta, 
Pois que a espécie é muita vasta... 
Há cinzentos, há rajados, 
Baios, pampas e malhados, 
Bodes negros, bodes brancos, 
E, sejamos todos francos, 
Uns plebeus, e outros nobres, 
Bodes ricos, bodes pobres, 
Bodes sábios, importantes, 
E também alguns tratantes... 
Aqui, nesta boa terra, 
Marram todos, tudo berra; 
Nobres Condes e Duquesas, 
Ricas Damas e Marquesas, 
Deputados, senadores, 
Gentis-homens, vereadores; 
Belas Damas emproadas, 
De nobreza empantufadas; 
Repimpados principotes, 
Orgulhosos fidalgotes, 
Frades, Bispos, Cardeais, 
Fanfarrões imperiais. 
Gentes pobres, nobres gentes, 
Em todos há meus parentes. 
Entre a brava militança 
Fulge e brilha alta bodança; 
Guardas, Cabos, Furriéis, 
Brigadeiros, Coronéis, 
Destemidos Marechais, 
Rutilantes Generais, 
Capitães de mar e guerra, 
— Tudo marra, tudo berra — 

     (...)

 Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861). 



 Outras Referências:
http://f5.folha.uol.com.br/televisao/988689-caixa-refaz-propaganda-e-mostra-machado-de-assis-mulato.shtml
http://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_gama
http://institutoluizgama.org.br/portal/
http://www.njobs.com.br/seppir/pt/
http://www.seppir.gov.br/

sábado, 22 de outubro de 2011

As gordas assassinadas

Aguardando ansiosa para ler "As esganadas"-Jô Soares(Cia das Letras) ficamos com esse trecho apetitoso,  compartilhado por http://veja.abril.com.br/livros_mais_vendidos/trechos/as-esganadas.shtml.
Um serial killer, dono de funerária que mata gordas empanturrando-as:
É de deixar água na boca!

sábado, 24 de setembro de 2011

Ah!, O amor nos tempos do cólera


Encantador. 
Esse é o adjetivo mais adequado para o filme "O amor nos tempos do cólera"http://www.cinepop.com.br/filmes/amoremtemposdecolera.htm, de Mike Newell, baseado no  também incrível romance de Gabriel Garcia Marquez..   O amor incondicional de Florentino por Firmina, cultivado por meio século é algo inimaginável para os modernos padrões de relacionamento amoroso e, por isso mesmo, prende, a meu ver, tanto leitor quanto  espectador. Claro que, na tela, as questões político/sociais abordadas no livro são levemente tangenciadas mas nem por isso  desqualifica o filme. 
Uma dica pra quem gosta de assistir a adaptações literárias para o cinema é, primeiro ler o livro e criar sua própria imagem de espaços/tempo/personagens pois, a criação cinematográfica já será uma visão terceirazada da obra.
Fica a dica.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Arejando a cuca

O site http://www.olivreiro.com.br/quiz/ tem um quiz muito legal pra decansar a mente. Entra lá e aproveita  pra conferir as dicas de leitura, faça amigos e procure comunidades. Bom findi pra todos!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

E-BOOK : Onde está Jonathan Makeba? - Altair Maia

Aproveitando uma dica, compartilho com vocês essa obra. Ainda não li mas acredito que  é sempre oportuno acrescentar elementos ao saber sobre o Continente Africano sob pontos de vista difrenciados.
Vamos aproveitar! 
Segue introdução do livro, pra dar início. Boa leitura!

Onde está Jonathan Makeba? - Altair Maia
(Introdução)


Jonathan Makeba é um personagem real. Ele é resultado da composição de homens e mulheres do bem, nascidos na África e que lutam ou que lutaram pelo desenvolvimento dos países do continente, aos quais tive o prazer de conhecer.
O século XX - o século da independência africana - viu surgir novas lideranças políticas, nos mais diversos pontos do continente. Às vezes em países minúsculos como a Guine Bissau, outras vezes em países gigantescos como o Congo, Moçambique ou a África do Sul.
A liderança de Jonathan Makeba, na pobre e miserável região fronteiriça entre o Burkina Faso e o Níger, vem carregada de princípio éticos e embasada em sólidos conceitos econômicos que buscam a inserção de toda a região do Sahel na economia globalizada.
Da mesma forma “o lado do mau”, personificado nos diretores da Burkina Société Minière, também é real. Alias esse lado é, certamente, em muito maior numero. Se nessas andanças africanas conheci dez pessoas do bem, conheci pelo menos o dobro do mau, tanto na África quanto fora dela.
As situações de intriga, às vezes de perigo e de corrupção, também são reais. Nomes, cargos, locais etc., foram trocados ou alterados em função de se preservar a identidade dos atores em cada situação.
Também é real o pensamento do autor sobre as alternativas econômicas para o desenvolvimento da África, que permeiam todo esse livro. São ideias apresentadas em artigos, livros e palestras do autor em diversos foros, instituições e universidades.
Por último, e para encerrar essa introdução, o Continente Africano também é real; com seu atraso; suas riquezas; suas mazelas; sua história e seu povo sofrido; esse sim é mais real e concreto que nunca. E os Baobás, testemunhas vivas da história que a tudo assistem, estão lá, espalhados por toda a Savana Africana.

(clique  no link abaixo para fazer o seu dowload)
http://www.jonathan-makeba.com.br/fazer_download.php

Um faroleiro barra pesada.

 Desconcertante e inegável, só para dizer o mínimo do recorte da natureza humana que João Ubaldo traça neste seu Diário do farol




Órfão relegado ao desprezo afetivo do pai forma-se na mente do narrador um plano de vingança, não só contra o pai, responsável pela morte de sua mãe, mas, também contra a humanidade em geral. Na medida em que ele cresce e brilhantemente elabora planos e crimes infalíveis para alcançar seus objetivos, deixa bem claro seu desprezo pelo leitor: a ele pouco importam os julgamentos. Assumindo uma postura aparentemente passiva, torna-se padre  pela vontade paterna, no seminário cria redes e tramas das quais é único "inocente" , somente cultiva relações que venham a servir aos seus propósitos e, no fim da vida, tendo alcançado seu objetivo final, recolha-se ao seu farol. Seu relato, na verdade nada mais é do que um registro feito por ele, para seu próprio deleite, egoísmo, maldade e crueldade, características que faz questão de atribuir  ao seres humanos indiscriminadamente: podemos  fugir,  mentir, ignorá-las, ou escondê-las, mas elas fazem parte de nós e nada pode-se fazer contra isso. O leitor, ao longo da narrativa é chamado a reagir aos insultos a ele dirigidos, é inúmeras vezes exortado a abandonar a leitura mas, brilhante na construção desse romance, o que João Ubaldo consegue é dar-nos mais ânsia de chegar ao final de mais essa brilhante obra.

Cármen Machado.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A pilantragem em livro

Música e literatura são um par perfeito, se a música for tãocontagiante quando a de Wilson Simonal, então, nem se fala.
Ainda não li o livrohttp://oglobo.globo.com/cultura/xexeo/posts/2011/08/03/pilantragem-genero-que-mpb-esqueceu-395968.asp, mas não vou deixar passar em branco não.

Capa do livro de Gustavo Alonso, Editora Record

Enquanto isso, sugiro o documentário "Ninguém sabe o duro que dei", excelente  e que mostra não só a ginga de Simonal como também momentos de tensão vividos durante a ditadura militar.
segue o  link:
http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2011/08/402_243-Simonal.jpg

Até a próxima!



Clica no link e dá só uma olhada nesa sugestão de leitura e escolha o teu,
Pra mim, se já não tivesse passado pelo desprazer de assistir, escolheria os chatíssimos Star Wars(que me perdoem os fãs da saga) e Rocky. Melhor ler, mesmo que seja rapidinho do que assitir.
Qual(ais) tu escolherias?
Acessa o link e deixe teu comentário aqui no Ideias de Canário. Até breve.

http://yfrog.com/h33jrqnkj

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ontem foi o dia do trovador e olha só o que éncontrei na página Educar para Crescer!
Aliás, incluo a página na minha lista. Vale conferir!
http://educarparacrescer.abril.com.br/cordel/

segunda-feira, 18 de julho de 2011

- 18 de junho:  dia do Trovador

Presente em todo o Brasil, o trovador, cantador vai  desenhando em versos a cultura de sua terra, seus hábitos, costumes e seu jeito de ser. Seja do Nordeste, ou do Sul, faz rimas cantando  amor, (de)clamando justiça e respeito  ou simplesmente fazendo graça, que ninguém é de ferro.
Nossa homenagem aos cantadores brasileiros!

"Poetas universitários,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês. (...)"
                  Patativa do Assaré.
"Negro de sorriso claro,
Como sinuelo de pampa,
Que sintetizas na estampa
Longínquas reminiscências;
Negro que lembras dolências
De alegrias e tristezas
Que andaram nas correntezas
Dos rios de muitas querências.


Essa cordeona que abraças
Com ciumenta intimidade,
Traduz - na sonoridade,
Quando teus dedos passeiam,
Madrugadas que clareiam,
Campos pelechando em flor,
Chinocas pedindo amor
E potros que corcoveiam.(...)"
                Jaime Catano Braum

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Ideias de canário-Machado de Assis

Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração.
No princípio do mês passado, — disse ele, — indo por uma rua,sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de urna loja de belchior. Nem o estrépito do cavalo e do veículo, nem a minha entrada fez levantar o dono do negócio, que cochilava ao fundo, sentado numa cadeira de abrir. Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabeça enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente não achara comprador. Não se adivinhava nele nenhuma história, como podiam ter alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas.
A loja era escura, atulhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dois cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão.
Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. Tão velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava lhe estar vazia. Não estava vazia. Dentro pulava um canário.
A cor, a animação e a graça do passarinho davam àquele amontoado de destroços uma nota de vida e de mocidade. Era o último passageiro de algum naufrágio, que ali foi parar íntegro e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais abaixo e acima, de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio daquele cemitério brincava um raio de sol. Não atribuo essa imagem ao canário, senão porque falo a gente retórica; em verdade, ele não pensou em cemitério nem sol, segundo me disse depois. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela vista, senti-me indignado do destino do pássaro, e murmurei baixinho palavras de azedume.
— Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente, não querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela?
E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:
— Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu juízo. Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. São imaginações de pessoa doente; vai-te curar, amigo.
— Como — interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Então o teu dono não te vendeu a esta casa? Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol?
— Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas estou vendo que confundes.
— Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém, salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado.
— Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo.
Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as idéias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, saía do bicho em trilos engraçados. Olhei em volta de mim, para verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja escura, triste e úmida. O canário, movendo a um lado e outro, esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do espaço azul e infinito.
— Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço azul e infinito?
— Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que cousa é o mundo?
O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.
Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os pés. Perguntou-me se queria comprar o canário. Indaguei se o adquirira, como o resto dos objetos que vendia, e soube que sim, que o comprara a um barbeiro, acompanhado de uma coleção de navalhas.
— As navalhas estão em muito bom uso, concluiu ele.
— Quero só o canário.
Paguei lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e arame, pintada de branco, e ordenei que a pusessem na varanda da minha casa, donde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do céu azul.
Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por alfabeto a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências. Feita essa análise filológica e psicológica, entrei propriamente na história dos canários, na origem deles, primeiros séculos, geologia e flora das
ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação, etc. Conversávamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando, saltando, trilando.
Não tendo mais família que dois criados, ordenava lhes que não me interrompessem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente, ou visita de importância. Sabendo ambos das minhas ocupações científicas, acharam natural a ordem, e não suspeitaram que o canário e eu nos entendíamos.
Não é mister dizer que dormia pouco, acordava duas e três vezes por noite, passeava à toa, sentia me com febre. Afinal tornava ao trabalho, para reler, acrescentar, emendar. Retifiquei mais de uma observação, — ou por havê-la entendido mal, ou porque ele não a tivesse expresso claramente. A definição do mundo foi uma delas.
Três semanas depois da entrada do canário em minha casa, pedi-lhe que me repetisse a definição do mundo.
— O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.
Também a linguagem sofreu algumas retificações, e certas conclusões, que me tinham parecido simples, vi que eram temerárias.
Não podia ainda escrever a memória que havia de mandar ao Museu Nacional, ao Instituto Histórico e às universidades alemãs, não porque faltasse matéria, mas para acumular primeiro todas as observações e ratificá-las. Nos últimos dias, não saía de casa, não respondia a cartas, não quis saber de amigos nem parentes. Todo eu era canário. De manhã, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e pôr lhe água e comida. O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava qualquer preparo científico. Também o serviço era o mais sumário do mundo; o criado não era amador de pássaros.
Um sábado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doíam-me. O médico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, não devia ler nem pensar, não devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e só então soube que o canário, estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para esganar o criado; a indignação sufocou-me, caí na cadeira, sem voz, tonto. O culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho é que fugira por astuto.
— Mas não o procuraram?
Procuramos, sim, senhor; a princípio trepou ao telhado, trepei também, ele fugiu, foi para uma árvore, depois escondeu-se não sei onde. Tenho indagado desde ontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareiros, ninguém sabe nada.
Padei muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com algumas horas pude sair à varanda e ao jardim. Nem sombra de canário. Indaguei, corri, anunciei, e nada. Tinha já recolhido as notas para compor a memória, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes chácaras dos arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta:
— Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?
Era o canário; estava no galho de uma árvore. Imaginem como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doido; mas que me importavam cuidados de amigos?
Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular.
— Que jardim? que repuxo?
— O mundo, meu querido.
— Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.
Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já fora uma loja de belchior.
— De belchior? trilou ele às bandeiras despregadas. Mas há mesmo lojas de belchior?


Texto extraído do livro “O Alienista e outros contos”, Editora Moderna – São Paulo, 1995, pág. 73.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Depois de Machado de Assis, só João Ubaldo Ribeiro

Poucos autores brasileiros foram capazes de retratar tão profunda e  brilhantemente a essência humana como Machado de Assis, particularmente a essência do povo brasileiro. Poucos, eu disse e João Ubaldo Ribeiro faz parte desse grupo.
O século XIX para, Machado, foi terreno fértil e  a contemporaneidade dá a João Ubaldo o material necessário à criação e suas brilhantes e ácidas, porém sem ranço, narrativas. "Hilário" e "debochado" são apenas alguns dos adjetivos usados para falar desse baiano radicado no Rio de Janeiro  mas que tem o recôncavo baiano como cenário de Viva o povo brasileiro-1984, O sorriso do lagarto-1989 e O feitiço da ilha do pavão-1997, obras em que o leitor estará em face à crítica à hipocrisia da elite colonialista, manipuladora das maiorias. Isso só pra dizer o mínimo, o que, no caso de Jão Ubaldo, não é nem a ponta do iceberg. Há muito mais a explorar.
Fico imaginando uma animada conversa  entre o circunspeto Machado e o  irreverente João Ubaldo sobre a alma  brasileira ...
Ficam minhas sugestões de leitura, recomendo porque, além dos dois anteriores, já li:
A casa dos Budas ditosos - 1999
Vencecavalo e o outro povo - 1974
O albatroz azul - 2009
Vencecavalo e o outro povo - 1974

Estão na mira:
Sargento Getúlio - 1971
Setembro não tem sentido - 1968
Sargento Getúlio - 1971
Vila Real - 1979
A participação de Joã Ubaldo na FLIP, vale a pena conferir no link abaixo:

Até a próxima.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Primeiros passos

Oi, gentes!!
Esse é o meu início como blogueira. Espero ser capaz de compartilhar coisas interessantes com todos aqueles que, como eu, tem um paixão incondicional,  pela leitura.

Beijos a todos. Tudo que encontrar, postarei aqui. Até breve!
Ah, sobre o nome do blog "IDEIAS DE CANÁRIO" ....

"O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas" -  José Saramago